Gênero, orientação, corpo, raios e trovões – #Gênero
Ser homem e ser mulher são coisas culturais, não apenas biológicas*****
Calma, eu sei que existem dois gametas diferentes, que a maior parte das pessoas é xy ou xx… Não estou falando só de biologia aqui, estou falando do que a humanidade entende por gênero. Acontece que o que a humanidade entende por gênero é cultural, uma vez que é uma idéia que nós inventamos (não tem uma placa homem e uma mulher no nosso DNA, a gente q escreveu a placa e pendurou lá). Eu não sei explicar isso muito bem, até mesmo entender é difícil, estamos afogados nisso, mas uma imagem pode ajudar.
Saca o Mogli, menino lobo daquelas histórias infantis? Que foi criado por uma loba e virou um selvagenzinho? Pois bem, se você é um camarada informado deve saber que pessoas como Mogli existiram e existem, assim como a lenda de Rômulo e Remo, que foi baseada no mesmo fenômeno. A coisa acontece quando uma criança perdida ou abandonada no mato, às vezes ainda bebê, sobrevive contrariando todas as nossas expectativas ao ser adotada por uma loba ou uma matilha. Como essa nova família não é uma família humana, a carga cultural de SER GENTE não será passada pra essa criaturinha. Essa criança é criada por alguma loba que a amamenta, ensina e protege como se fosse seu filhote. A criança não cresce como um humano, cresce como lobo (corpo desajeitado, sem aqueles pelos todos, sem ser quadrupede, sem caninos poderosos, mas, ainda sim, um lobo).
Pessoas que foram encontradas assim já crescidinhas sempre sofreram na mão de animais aleatórios que a quiseram domesticar, chamados humanos. Na nossa cabeça humana sempre cheia de boas intenções, no entanto, não era domesticar e sim curar uma lobice indesejável. No geral seu corpo pode parecer com o do menino lobo, mas anda nas patas de trás, o que é bizarro, usa roupas, o que é ridículo e faz sons bizarros que não são nem rosnados nem uivos, o que é mais absurdo ainda. A criança lobo não tem por que identificar com alguém de sua espécie, isso é forçar a barra. Ter um cérebro excelente não é suficiente pra que ela pense EPA, sou homem, não lobo, bora adquirir uma cultura aprender uma linguagem, ser racional, educado e voltar pra pobre da minha mãe que morre de saudade.
Os humanos que a capturam sabe que são humanos, mas não descobriram sozinhos. Vivem com seus iguais e aprendem que são como seus iguais e devem agir assim e assado, comer tais coisas, evitar certos animais e lugares, bem como absorvem pedacinhos de conhecimento acumulado pela fala e pela escrita. Criam pensamentos novos, registram, passam adiante, aprendem que são humanos, racionais, podem usar roupa para se proteger do frio etc. Ces entenderam né? Digam que sim.
Assim como pensamos “naturalmente” em palavras e não conseguimos fugir disso ainda que palavras sejam criações COMPLETAMENTE culturais, também nos vemos (a maioria) naturalmente mulheres ou homens, como se ser uma coisa ou outra fosse um fato dado, inexorável, definidor total de nossa expressão e papel no mundo.
Não vou reclamar de quem vê assim. Nossa cultura nos dividiu em dois: humano homem e humano mulher, assim como os lobos se dividiram de uma maneira mais primitiva (porem eficiente) em alfa e o resto. A gente aprende esses dois gêneros como aprendemos a ser humanos, ia ser difícil eu tentar convencê-los de que não são humanos, né?
A idéia de gênero vem em segundo lugar. Enquanto a idéia cultural de ser humano nos une a todos (bem, talvez não esse cara), a idéia de gênero cria um recorte que obriga todos a entrar no time dos meninos e time das meninas (dica: não podemos escolher o time, o médico/parteira que olha nossa genitália e classifica). Essa divisão pode incomodar e pode não fazer sentido. A de ser humano por não ter alternativa não vai ser nenhum processo doloroso, que fira nossa identidade (a menos, novamente, que você seja o guri do link anterior). O gênero fica então numa posição menos certa, mais flexível, até mesmo porque muitos papeis e detalhes comportamentais que tem gente que jura q são naturais e inerentes ao gênero genital são tendências que mudam ao longo dos anos até ficarem quase irreconhecíveis séculos depois, eles são acidentais, não necessarios. E porque nem biologicamente a coisa é tão exata assim.
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Agora vamos ao que interessa. Não existe só homem e mulher e não existe apenas homem xy e mulher xx. Talvez alguns de vocês saibam que existe, por exemplo, as pessoas transexuais, tanto homens quanto mulheres. Tudo isso ainda está dentro do registro binário de gênero, que não é a melhor coisa do mundo, mas que pode ser salvo da completa inutilidade se abandonarmos a noção gênero-normativa de que a identidade deve acompanhar a forma do corpo.
Dentro desse esquema, as pessoas como eu, que tem identidade de gênero em acordo com o que seu corpo é, com sua genitália, com seu dna, com suas mamas, com o que deseja, com o que a nossa cultura aceita como sendo a combinação corretas desses fatores etc, são chamadas CISGÊNERO.
O termo transexual é a um só tempo um termo específico e um termo guarda-chuva, mais abrangente. No primeiro caso é só FTM e MTF, menino que vira menina e vice-versa incluíndo alguma alteração corporal e no segundo é para qualquer pessoa que ainda estando no registro binário, é qualquer outra coisa que não cisgênero (em outras classificações pode ser, ainda, pessoas não cis mesmo fora do registro binário).
Abaixo falo sobre os nomes que se dá pra cada caso segundo as definições mais usada pelas pessoas que estão alí no meio termo entre acadêmicos manjadores e leigos completos. Estas definições não se esgotam, não são completas, não são absolutas e podem mudar de descrição dependendo da teoria, da pessoa, do movimento, da época etc…
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Definições rápidas rasteiras e incompletas:
Mulheres trans são mulheres registradas como homem no nascimento, com cromossomos masculinos e tudo, mas não se identificam com o gênero masculino e sim com o feminino e desejam ter corpo de mulher.
As travestis, por outro lado, que se sentem ok mantendo genitália masculina mesmo tendo identidade feminina (ou andrógina).
Do outro lado temos os homens transexuais, pessoas que tem identidade de gênero masculina e cujo registro ao nascer e corpo são femininos.
Homens trans também passam ou podem passar por procedimentos cirúrgicos de alteração de sexo que pode incluir a retirada dos seios e do aparelho reprodutor ou só dos seios. O tratamento hormonal também acompanha e isso para alguns pode levar ao aumento do clítoris, que ficaria como um micro pênis (ou só um clítoris grandão, que seja). Existe a possibilidade de se construir um pênis com carne do corpo da pessoa, mas é um troço super complicado, com poucas garantias e que não é atendido pelo SUS (que recentemente incluiu transição para homens trans).
As siglas FTM e MTF podem ser utilizadas para designar mulheres e homens trans. FTM = female to male = homem trans / MTF = male to female = mulher trans.
Como já foi dito transexual também pode ser um termo guarda-chuva que inclui travestis, transexuais já operadas ou ainda não operadas (pós-op e pré-op) mas que desejam passar por essa transição etc…
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Outros nomes:
(no último parágrafo, deixa eu divagar primeiro)
Tudo que eu disse até agora (uma pequena exceção talvez para as travestis) está dentro da visão de mundo dividido em homem e mulher, mais ou menos como nossa genética define. Isso porque 1 – é mais didático assim 2 – a maioria esmagadora das pessoas tem que dar um salto muito maior para conseguir sair do registro binário, sair do gênero-normativo genital já ajuda.
Fora desse mundo, existem pessoas que simplesmente não se conformam em ter só esse ou aquele gênero, ou mesmo permanecer no mesmo até o fim da vida, ou em agir conforme o que está prescrito para aquela que é sua identidade, ou ter o corpo totalmente masculino ou totalmente feminino.
E enquanto algumas travestis se consideram mulher, dizendo que são mulher trans, e estão portanto, confortáveis assim, uma parte delas simplesmente não se encaixa nas caixinhas menina/menino, sendo um bom exemplo desses casos. Apenas um exemplo, tem muito mais gente assim, não só quem se denomina (ou é denominado) travesti. Independente do que faça com o corpo ou com as roupas ou com o nome, não se sentir como sendo nem mulher nem homem ou ambos ao mesmo tempo é uma coisa que pode acontecer em qualquer pessoa, com ou sem categoria, com o corpo assim ou assado.
agora sim, nomes:
Andrógino(a) Queer, Questioning, Crossdresser e outras palavrinhas em inglês são utilizadas para definir pessoas cuja identidade de gênero estão além do registro binário homem X mulher ou que não consideram que tem gênero, ou que assumem um mas tem uma vida totalmente alinhada com outro, enfim, tudo que você pode imaginar. A coisa é um mar de guerras semânticas onde todo mundo que, ao invés de brigar, simplesmente aceitar a auto-identificação dos outros ganha
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Born this way:
“Nasci no corpo errado” é a explicação de muitas pessoas transexuais para sua transexualidade. Pode ser isso, eu que sou cis não vou saber dizer, o problema é que essa é uma daquelas afirmações que conquistam muita gente, são super intuitivas mas não são absolutas. A pessoa não necessariamente precisa se sentir assim desde que se entende como ser sexual (e não é logo que nasce) para que a coisa seja legítima, nem ao menos precisa decidir cedo, ou querer ser o esteriótipo daquele gênero etc. Boa parte das pessoas trans vão dizer isso – e boa parte vai estar sendo sincera – só estou dizendo que essa explicação não se esgota.
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Doença:
Para que o tratamento hormonal e cirurgia de mudança de sexo sejam feitas em pessoas trans, em hospital público e tudo, no Brasil, a coisa tem que ser doença, uma condição a ser curada. Assim, ainda chamam a transexualidade de transgenitalismo, disforia de gênero ou outros nomes cheios de letras, que estão nas listinhas de enfermidades. Não vou nem discutir isso aqui porque rende muito assunto e estamos resumindo, só vou adiantar que não concordo que seja doença e que o sistema de saúde bem podia arrumar outra justificativa e continuar fazendo esse trabalho.
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*****AVISO IMPORTANTE: pessoas, isso é um resumo extremamente resumido, uma ajuda pra nego que não faz idéia do que sejam essas coisas e gostaria de saber um tantinho. Essa é só uma mistura de algumas informações que coletei por aí com pessoas e textos e um monte de opinião minha, não leve tudo isso muito a sério, procure informação você também e esteja aberto a novas idéias.
Acadêmicos, manjadores, trans etc: eu nunca disse que sou ESPECIALISTA no assunto, só estou tentando dar uma luz pra leigos. Eu sei que existem níveis muito mais avançados desse assunto mas meu público não está todo nesse ponto, a ideia é q isso seja apenas um primeiro passo, tudo que outras pessoas mais ou menos fodas que eu disserem bem possivelmente é válido e talvez mais correto, então se quiserem criticar, fiquem avonts, mas levem isso tudo em consideração primeiro





October 21st, 2011 at 22:14
Acho que a parte que você acha não explicar muito bem se define assim:
O gênero sexual existe, homem *e/ou* mulher. No entanto, o gênero social, foi criado pelo homem. Então o que é “coisa de mulher” ou “coisa de homem” é puramente cultural. Como brincar de carrinho ou boneca, usar saia ou não, gostar de rosa ou azul. Tanto que o exemplo da saia por exemplo não se aplica em todos os países e épocas da humanidade.
Com isso em mente, acho que faltou você comentar um pouco sobre androgênia. Afinal são pessoas que supostamente não se consegue definir qual gênero (sexual e social) ela é, e muito menos sua orientação sexual, apesar de muitos assumirem que os andrógenos são sempre homossexuais.
Eu apesar de ser gay sou bem “old fashioned” em relação a minha identidade social, e mesmo assim, considero a androgênia uma utopia hahaha. Imagino as pessoas vestindo o que querem, fazendo o que querem, falando e se comportando do jeito que bem entendem. Seria legal não?
October 21st, 2011 at 22:53
Então, Fábio, esse é o primeiro texto de uma série de 4 textos sobre o assunto, então vou destrinchar outras coisinhas. Mesmo assim somando vai continuar sendo resumo, mas coisas que faltam aqui ainda podem aparecer. acompanha e a gente vai juntando as idéias
October 22nd, 2011 at 07:39
Muito massa. Muito mesmo. Tô aguardando os próximos textos.
November 2nd, 2011 at 23:04
Dani, só para contribuir, alguns comentários…
“Calma, eu sei que existem dois gametas diferentes, que a maior parte das pessoas é xy ou xx…”
Na prática os cromossomos não necessariamente representam o sexo dos seres humanos. Os casos mais conhecidos são as mulheres XY portadoras de CAIS (Complete Androgen Insensivity Syndrome) e os homens XX, conhecido como XX male syndrome.
Isso sem contar nas outras variações como XXY/XXXY/XXXXY (Klinefelter), Triple X (XXX) ou turner syndrome (single X).
Muitas destas variações cromossômicas são muito comuns, e em alguns casos a pessoa nunca fica sabendo que possui esta variação, principalmente quando não implica em nenhuma diferenciação fisiológica aparente. Eu nunca fiz um teste cromossômico, portanto não me arriscaria dizer que possuo XY.
Porque é importante pensarmos nisso? A febre pela busca de diferenças sexuais entre homens e mulheres culminou com a descoberta dos cromossomos no início do século XX. É um sistema absolutamente binário no qual os seres humanos são rigidamente divididos entre machos e fêmeas e qualquer variação deste sistema é tratado como anomalia. Ora, hoje sabemos que os cromossomos não são absolutos, e como coloquei acima, XX ou XY não são capazes de responder se determinado ser humano pode ser classificado como sexo masculino ou feminino.
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Eu não sou nem um pouco apegada a palavras/categorias, para mim o mais importante é o sentido que se usa por trás destas palavras, mas só para acrescentar, o termo guarda-chuva que tem sido utilizado tanto no Brasil quanto lá fora é “trans”. Quando falamos pessoas trans normalmente nos referimos a qualquer pessoa cuja identidade de gênero diverja daquela designada quando do nascimento.
Bjo grande!
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November 12th, 2011 at 00:56
[...] O bom de falar de orientação sexual é que todo mundo sabe o basicão. Heterossexual é menino com menina e homossexual é menino com menino (gay) e menina com menina (lésbica). Ou sabe o básico e inclui aí que bissexual é menino ou menina que gosta de menino E menina. Quem é espertinho até consegue sacar que o T de LGBT não é uma orientação e sim uma identidade de gênero, conforme falado aqui nesse post anterior. [...]